domingo, 31 de janeiro de 2016

TEIA
Presa numa teia
Construo meus sonhos de sereia:
ganhando asas,
quebrando laços,
conquistando sabores,
pintando dores.

Sobre a Teia
ergo muralhas e vendo oásis
e num sopro tudo se desfaz.

Traço planos outros,
arquiteto odisseias e sigo
como onipotente.

Ah, Ulisses!
se soubesses que para te esperar
precisei ser várias Penélopes,
juntar cacos
e seguir sem paz.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Travessias

Do rio à margem
há uma margem terceira
(também pode ser segunda)
que se fantasia de calmaria.

Canoa, barco ou navio
são apenas máscaras
do caminho.

A terceira margem metamorfoseia
o navegante, o filho,
o rio e a plateia.

Rio  há à frente,
rio há atrás.
Mas tem dias que os rios não bastam


Só resta criar canoas, barcos e navios.   

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE INTERVALO AMOROSO & OUTROS POEMAS RECOLHIDOS, DE AFFONSO ROMANO DE SANT’ANA

Foi o labirinto que me levou à literatura de Affonso Romano de Santana. As crônicas de Como caminhar no labirinto me deixaram com vontade de conhecer seus outros textos literários. Por isso, quando me deparei com Intervalo amoroso & outros poemas recolhidos o nome do autor fora o suficiente para me atrair e só bastou passar os olhos em um dos poemas para querer levá-lo comigo. Instante de amor foi o primeiro poema que li (ainda na livraria) suas últimas estrofes ficaram se movimentando em meus pensamentos  “Me ame apenas/ no imenso instante/ em que te amo./ O antes é nada/ e o depois é morte”.
Depois foi difícil escolher os que mais me tocaram. Mas, a fim de ilustração falarei de alguns:
Em tempos de culto à juventude versos como Estou amando tuas rugas, mulher [...] Essas rugas são sulcos/ onde aramos a messe do possível amor no qual o sujeito poético, através da metáfora da ruga, revela a maturidade de seu amor. A leveza proposta por Calvino torna tantos poemas do livro mais belos ou, talvez, seja a beleza que os deixe mais leve, como no poema objetos do morto: Os objetos sobrevivem ao morto:/ os sapatos/ o relógio,/os óculos,/sobrevivem/ ao corpo/ e solitários restam sem conforto/ Alguns deles como o livro/ ficam com o destino torto./ Parecem filhos deserdados/ ou folhas secas no horto./ As joias perdem o brilho/embora em outro rosto./ Não deveriam deixar pelo mundo/ espalhados/ os objetos órfãos do morto, pois eles são, na verdade, fragmentos/ de um corpo.
Em flor da tarde: Ali, na junção das coxas com o tronco, suspiravas/ e a doce fúria de minha língua jardineira/ tua carne floreava” a metáfora da flor emite cheiro e beleza que se misturam na última estrofe, nos legando o mais lindo poema erótico que já li.

Amor, morte, Brasil, história, erotismo e poesia são retratados no livro de uma maneira que só a literatura conseguiria, ou melhor, só um bom poeta seria capaz de expressar. Ritmos, imagens, metáforas atravessam o livro e o leitor.  Intervalo amoroso & outros poemas recolhidos provocou em mim reflexões, lirismo e muito deleite.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Poema de janeiro
                  Para Rita Queiroz

O fim e o começo
não é a cinza e a chama.

O fim é o começo
e ambos, o marco
de um tempo
que precisa se concretizar

Cinza não é chama
mas juntas nos faz lembrar
que estamos sendo consumidos,
não temos posição fixa.

Hoje somos chama,
amanhã seremos cinza.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


Cena

Sandálias nas mãos,
Ouvidos nas ondas,
O mar passa como uma lira.

Doce, o vento molha os cabelos
Suave, a água atravessa os pés,
descompassadamente.

Olhos nas nuvens marítimas
(que passam em suas retinas como chocolates)
e amalgamados ao mar
se perdem
para registrar um furacão de beleza.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Exílio


Desassossego, a batalha solitária.
Impulsionado, a mão do Nada trabalha.
Os olhos, o vento seca.
A chuva alimenta os pés.

Deslocado me desloco
a procura da casa
que (des)conheço:
Repouso e movimento.

Chuva, vento, olhos, casa...
Não me reconheço.
Toda semelhança é mera coincidência.
Retorno e inicio no mesmo silêncio.

Meu corpo é um exílio.