domingo, 7 de dezembro de 2014

Exílio


Desassossego, a batalha solitária.
Impulsionado, a mão do Nada trabalha.
Os olhos, o vento seca.
A chuva alimenta os pés.

Deslocado me desloco
a procura da casa
que (des)conheço:
Repouso e movimento.

Chuva, vento, olhos, casa...
Não me reconheço.
Toda semelhança é mera coincidência.
Retorno e inicio no mesmo silêncio.

Meu corpo é um exílio.


sábado, 28 de junho de 2014

Conheci Lúcia Santóri-Carneiro no lançamento do meu livro, Outros eus (já conhecia alguns de seus versos através da minha amiga Lidi). E o olho do gato que fora transformado em versos por nós duas permitiu-me ganhar um exemplar d’As voltas do tempo que a autora gentilmente presenteou-me. Eis aqui algumas palavras sobre a obra que tanto me encantou:
As voltas do tempo é uma incursão pelo universo lírico da infância, do cotidiano e da memória.  Lúcia Santóri-Carneiro extrai desses universos a mais pura poesia. Seus versos carregam a dor e o peso da vida que escorre com tal leveza que nossa dor se torna mais suave, quase como uma bola de sabão. O livro é dividido em duas partes: para brincar não precisa muito e mar de dentro. Na primeira, o universo da infância é um convite para o leitor brincar com a memória, enquanto a poeta brinca com as palavras. O mundo da brincadeira é o mundo da criação. E para brincar não precisa muito, basta uma criança/ duas crianças, três crianças... Para criar basta observar, lembrar, vivenciar, brincar. E as imagens ofuscam nossos sentidos com tanta beleza: O olho azul do gato/ mar que anda pela casa.
Na segunda parte, tamanha é a intimidade da poeta  com o mar que ele invade nossos olhos e ouvidos e transborda em nosso peito. A leveza ganha o tom da “tarde que cai”. E a percepção do sujeito lírico proporciona ao leitor um olhar mais atento para o outro e para si.  Aqui a infância e a memória continuam presentes revelando-nos que  nas voltas do tempo nada se perdeu./ Não há tempo. Ontem, hoje, amanhã./ Há somente o sempre./ Eu, você, atravessando capítulos, contínuos capítulos.

Saí do livro com a sensação de ter feito um passeio em torno de mim. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

ALGUMAS PALAVRAS SOBRE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Conheci Gabriel García Márquez, através do Avião da bela adormecida, nas primeiras aulas do curso de Letras. O professor/comandante era Mayrant Gallo. Eu era uma adolescente que naquele momento ficou irritada com o comentário dele ao afirmar que leria, na aula seguinte, o texto com a turma porque não sabíamos, ainda, ler literatura.  Tínhamos aula de teoria I as terças e quintas e nossa primeira tarefa do final de semana era a leitura do conto de Márquez. Meu olhar de iniciante não soube perceber as sutilezas do texto que considerei chato. Cheguei na sala com ar petulante esperando para ver como aquele professor nos ensinaria a ler (eu tinha certeza que já sabia). Mas, logo na leitura dos primeiros parágrafos fiquei encantada com a maneira como Mayrant nos mostrava as metáforas, a beleza do texto, meus olhos e ouvidos custavam a acreditar que se tratava do mesmo conto... Compreendi que eu não sabia ler.
Era fevereiro de 2005 e as impressões daquele momento não seguiram o ritmo do tempo. O Avião da bela adormecida foi o meu passaporte para a leitura do escritor colombiano e de outros autores ...


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CURRÍCULO

Não tenho corpo de modelo
Nem seios de escultura
Não tenho nariz, bunda, boca e pernas
de porcelana.

Não nasci flor
Não cresci boneca
Nem fui transformada em princesa.

Meu canto
não é de sereia.

 Brinco com versos
Transformo minha lágrima e meu riso
em percurso.

Sou mulher
num mundo cheio de espinhos.

Ás vezes sou luva,
Outras beija-flor.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014


“Quando ela chegou a este país, seu corpo já havia parado de crescer, seus ossos já haviam recebido sedimentos antípodas suficientes para o fim de sua vida, seu cabelo outrora flamejante a luz do sol meridional agora parecia apagado e empoeirado no novo hemisfério, e ela tinha trinta anos [...]”- trecho inicial de Rumo a outro verão, de Janet Frame. Um livro que guarda todas as características que me encantam num texto literário: Poesia, criatividade e ironia; uma obra que me ganhou desde o primeiro parágrafo. Daí em diante a conquista foi somente se solidificando.
Ela é Grace Cleave uma escritora, assim como Frame, neozelandesa que vive na Inglaterra, protagonista e também narradora do romance ( o texto começa sendo narrado em terceira pessoa, mas também é narrado em primeira). Trata-se de uma leitura inquietante, exige a atenção máxima do leitor, ao mesmo tempo em que o presenteia com belíssimos trechos, observações singulares: “Deslizei pela alta pilha de folhas velhas [...] até descobrir as folhas descobertas de qualquer ano ou de ano nenhum; não havia mais folhas; haviam se tornado terra” ou “ [...] se viu no meio de uma paisagem em que todo tipo de vida havia sido arrancado; grama encharcada; pequena saliência de neve preta; neve suja. As árvores estavam arrasadas e cinzentas como se a tempestade de neve, passando como uma praga de gafanhotos, houvesse devorado a vida delas.”, entre tantas outras, ao gosto de cada leitor. 
É a “voz” de Grace que nos conduz a uma viagem histórica, geográfica, cultural, temporal e, sobretudo, interior. Por meio de seus sentimentos, lembranças e reflexões nos vemos, ao longo das páginas, como um observador da própria imagem num lago em tarde de fim de chuva. Cleave sente-se um pássaro migratório: “ vocês acham que sou Grace Cleave visitando-os no fim de semana, mas na verdade, sou um pássaro migratório” . Esta é a metáfora da solidão, da liberdade e do desejo constante que move o ser humano a sempre buscar “ outro verão”. E, através dela , Frame construiu um dos personagens que melhor traduz a angustia e a solidão humana que já encontrei.